Um sonho e novas flores

No centro de São Paulo, onde Jasmim morava, não havia muitas flores. Dividia com uma amiga um pequeno apartamento de dois quartos em um prédio cinza de longos corredores, que eram iluminados por uma luz fraca que deixava o ambiente quase na penumbra. Lá não havia varanda e, portanto, nenhum espaço exterior para flores. Ela bem que tentou cuidar de uma dentro de casa, mas o apartamento, que ficava escondido em um gigante labirinto de prédios, quase não recebia luz natural. As plantinhas, coitadas, chegavam alegres, ostentavam a beleza por três ou quatro dias e fim.

Ela estava disposta a mudar daquele lugar mas o dinheiro que ganhava como bailarina de uma casa de chá não lhe permitia extravagâncias, não lhe permitia flores, nem cores, só dores. Ensaiava todas as tardes com toda a sua alma para participar de todas as audições possíveis, mas a sua vida cinza não dava trégua e até então, a história era só não.  Os pés doíam, mas ela sempre dizia que era uma dor bonita e alegre, diferente daquela que carregava no coração. Essa sim, doía firme, latejante, por vezes quase insuportável.

A dor era pela falta de flores, como sentia saudades delas.  Seu pai costumava dizer que as flores eram suas irmãs. Mas naquela casa, onde morou até os dezessete anos, elas eram mais do que isso. Elas eram os patrões, o salário, a declaração de amor, o chá da tarde, o perfume dos ambientes, os adornos dos chapéus, a beleza do lugar.

Júlio e Maria, seus pais, criavam flores no quintal para vender. Havia flores para todos os lados em que ela olhasse. Flores rosas, roxas, brancas e amarelas. E nem precisava ser primavera. As flores de lá eram seres insistentes que não iam embora assim só porque uma estação do ano acabara.

O sítio onde moravam era o mais cheiroso da região e era ali que as noivas iam buscar esperançosas as flores do buquê e os apaixonados a declaração de amor. Era ali também que as família enlutadas escolhiam a última homenagem. Ela entendia das flores, sabia como cortá-las, como plantá-las, combiná-las. Chegava da escola e já ia logo ajudando a mãe na pequena lojinha que montaram no fundo da casa.

Dividia o seu tempo e paixão entre as flores e o balé, que começou a praticar aos 8 anos numa escola de arte itinerante que passou pela cidade. Nunca mais deixou de dançar e fazia isso todos os dias na única oficina de dança da cidade. As rosas e margaridas de seu pai é quem pagavam a mensalidade da escola e as orquídeas garantiam a troca da sapatilha gasta quando necessário.

Numa manhã de domingo, as flores amanheceram estranhamente sem perfume. Jasmim abriu os olhos assustada ao ouvir o grito de sua mãe, que ao despertar percebeu que o coração de Júlio já não mais batia e não mais floresceria. Escolheram as melhores flores para prestar-lhe as últimas homenagens e Jasmim decorou o caixão com um arranjo de violetas. A casa ficou menos florida e Maria, sua mãe, não tardou a seguir seu pai, quando numa outra manhã de domingo amanheceu sem vida, morrendo da mesma morte do pai, na mesma cama, em um quarto sem flores.

Não lhe sobrara nada, só as flores que, enquanto ela chorava, foram morrendo, uma a uma, por falta de cuidado. Ela decidiu que bastava de flores e que viveria então de sua outra paixão. Fechou a porta do sítio, apanhou as economias do pai e viajou para São Paulo para viver outra história, menos estática, com mais rodopios.

Quatro anos depois, os rodopios ainda não tinham vindo do jeito que ela queria e a falta que sentia das flores abria um buraco cada vez maior dentro dela.  Nesse tempo todo, Jasmim havia voltado somente 3 vezes ao sítio, que parecia um lugar estranho em que ela nunca havia estado. Não havia cores, flores, cheiros e sorrisos. Só havia um silêncio ensurdecedor e irritante.

A vida era triste mas o seu coração era pura esperança. Aprendera com as flores que há sempre um momento certo para desabrochar. Guardava em si um sonho grande que esperava que desabrochasse logo. Fechava os olhos e projetava a imagem de si mesma dançando no palco do teatro municipal, com um vestido prateado, uma flor vermelha na orelha e outra no cabelo. Quando o seu sonho florescesse, ela prometera a si mesmo que perdoaria as flores que haviam morrido e plantaria novas.

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O melhor amigo de 2012

“Não há um centímetro quadrado da realidade sobre o qual Cristo não possa dizer: ‘é meu” (Abraham Kuyper).

Eu não poderia terminar o ano de 2012 sem dizer o que ele significou pra mim. Que ano. Que dias. Quanto sonhos realizados. Quantas lágrimas derramadas. Quantas decepções. Quantas conquistas. Quanta contrariedade. Saio de 2012 com uma carga de aprendizado que eu dificilmente teria se não tivesse saído da minha zona de conforto. A maior de todas as lições, porém, foi, sem dúvida, aprender a depender 100% de Deus e a entregar cada segundo nas mãos Dele. Pode crer que Ele realmente dá conta do recado e faz muito mais do que poderíamos imaginar. É claro que como cristã eu já sabia disso e até já havia vivido isso em alguns momentos, mas jamais, JAMAIS, na intensidade que vivi esse ano.

Quando nos mudamos para Estados Unidos, em junho, eu acordei numa cidade estranha, sem calçadas,  sem transporte público, sem a minha rotina, sem a minha carreira, sem a minha família, sem os meus amigos. Chorei muito. Foram mais de 40 dias dentro de um quarto de hotel, sem ter muito o que fazer (pelo menos antes de começar a estudar pro Toefl), tentando entender o que seriam os meus próximos dias. Antes de viajar, no entanto, uma das últimas pregações que assisti na minha igreja de São Paulo foi de um pastor da Igreja Presbiteriana da Coréia. Ele visitou a IP de Pinheiros para falar sobre a oração e contou que em sua igreja os irmãos se reuniam todas as manhãs antes de irem trabalhar para orar por uma hora. Tudo isso me fez pensar em como somos displicentes com Deus.

A gente gasta uma hora no facebook, vendo tv, navegando em sites, falando ao telefone, mas me diz, quando é que a gente gasta uma hora da nossa vida exclusivamente para nos relacionarmos com Deus (não vale contar as horas em que estamos na igreja)? A pregação dele foi inspiradora e se transformou em um desafio pra mim.  Ele explicou que antes da oração, era importante que nós fizéssemos a leitura da palavra e depois conversássemos com Deus sobre o que havíamos lido e sobre o que mais quiséssemos. Não precisava nem ser uma hora, podia ser um hábito de 20 minutos, até que isso se tornasse parte das nossas rotinas (porque muitas vezes nós tiramos Deus da nossa rotina ou só colocamos quando sobra um tempinho, né?).

É claro que a pregação dele foi muito além dessa proposta e explicou muito a respeito da importância da oração e da leitura da palavra, além, é claro, de contar histórias, sobre as consequências desses hábitos. Não vou entrar nos detalhes da pregação, mas a questão é que isso mudou a minha vida. Eu saí de lá naquele dia disposta a fazer isso. Faltava poucos dias (menos de uma semana) para a nossa viagem e eu sabia que eu ia ter tempo de fazer isso na minha nova vida nos Estados Unidos.

Naquele hotel em Louisville eu comecei a minha vida de leitura e oração diária. Óbvio que eu sempre orei e li a palavra, mas tudo era feito esporadicamente, quando sobrava aquele tempinho. Não estamos falando aqui da oração antes de dormir, antes das refeições ou daquela oração rapidinha após o despertar (elas devem continuar, mas não estou me referindo a elas). Trata-se de um período específico, marcado e programado exclusivamente para se relacionar com Deus, ouvir o que ele tem a dizer e dizer o que temos dentro de nós.

No começo do ano eu já havia iniciado um programa da Sociedade Bíblica do Brasil para a leitura da bíblia em 1 ano e então juntei esse programa ao meu momento de oração. Esse hábito foi, sem dúvida, a minha maior conquista em 2012. É impressionante o que Deus pode fazer quando nos dispomos a estudar e a orar. Eu vi o Seu agir nos meus dias, nos meus minutos, nos pequenos detalhes. Não foram poucas as vezes que eu me emocionei durante o meu dia porque podia ver o agir de Deus.

Antes de vir pra cá, eu tinha trocentos amigos que diziam que estariam ao meu lado. Poucos dias depois, a grande parte deles desapareceu, com exceção de alguns bons e queridos e de uma ou outra ajuda que surgiu de onde eu nem esperava. Mesmo assim, eu agradeço a Deus por isso. Porque foi na ausência de pessoas, que eu busquei mais a Deus e tentei escutar mais os conselhos dos céus em vez dos conselhos da terra.

Eu termino 2012 agradecendo a Deus pela oportunidade de tê-lo conhecido mais e querendo glorificá-lo mais e mais. Tudo me levou a querer conhecê-lo mais. Ainda em Louisville comprei a versão para kindle do livro “Don’t Waste your Life” de John Piper. Compreendi que estamos aqui para engrandecer a Deus e fazer a sua vontade em todos os aspectos da nossa vida. Comecei a estudar um pouco de teologia e tenho gostado muito de encontrar respostas para perguntas que eu sempre tive, mas nunca busquei solução.

No meio dessa minha aproximação de Deus, Ele foi fiel e me trouxe muitas bênçãos. Apesar dos meu desespero inicial quando cheguei aqui, ele me confortou por meio de um marido paciente e incrível que se mostrou ainda melhor do que aquele que eu conhecia, ele levantou pessoas necessárias para estar ao meu lado aqui, embora elas não tenham sido quem eu imaginava. Ele me ajudou a estudar para o Toefl e a alcançar a nota necessária para ingressar na Universidade de Louisville. Ele mudou todos os planos e fez o Ugo ser transferido pra Califórnia (San Ramon) três meses depois da nossa chegada. Ele me ajudou a começar a pós na Universidade de Berkeley e terminar o primeiro trimestre com um A. Ele nos permitiu viajar e ver lugares lindos que jamais imaginávamos que veríamos. Ele fez o meu casamento ficar ainda melhor.  Ele fez tantas coisas esse ano, que eu não teria espaço para colocar aqui. A Ele toda honra e toda a glória por esse 2012.

 “Nós não somos o que gostaríamos de ser; Nós não somos ainda o que iremos ser. Mas graças a DEUS, não somos mais quem nós éramos” (M.L. King).

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Aquele outro mundo

As janelas de madeira me pareciam simples demais. Elas eram pintadas de azul e não havia tranca, nem cadeado, apenas um pequeno retângulo de madeira que, alinhado com o batente vermelho deixava a janela aberta, e, ao ser girado para a esquerda, a impedia de ser aberta. Eu achava curioso que ninguém se preocupasse em colocar umas trancas mais fortes ali.

A fazenda dos meus bisavós maternos era um mundo a parte, um lugar que deixava os meus olhos de crianças sempre alertos tentando entender como é que podia existir um mundo assim, tão diferente do meu. É claro que naquela época eu não refletia sobre essas diferenças, eu apenas levava meus olhos de um lado para o outro, hipnotizada pela simplicidade e pelo cheiro de mato.

Aquele lugar, no sul de Minas, onde íamos somente uma ou duas vezes ao ano, foi o meu primeiro contato com um mundo que não era o meu. Tudo era distinto do caos urbano que a pequena paulista ainda não compreendia. Não havia portões, só cercas e porteiras. Eu, que sempre fui desengonçado, morria de medo de passar por debaixo do arame enfarpado. Ficava minutos olhando para aquelas pontinhas – tentando medir onde era mais seguro passar – enquanto os meus primos ali da roça faziam isso com a maior facilidade do mundo.

A casa tinha duas cozinhas. Uma  ficava do lado de fora, numa espécie de anexo, separado da casa por uma varanda. Lá havia um fogão à lenha e uma pequena sala no fundo que servia de despensa. A outra cozinha, que quase não era usada, ficava dentro da casa, e tinha um fogão elétrico ou, na minha concepção de criança, um “fogão de verdade”.

Lá na cozinha de fora eu via o diferente acontecer. Lembro-me de quando a bisavó Maria, mãe da minha avó Luiza, me “ensinou” a fazer queijo. O leite para produzí-lo aparecia todas as manhãs na cozinha dentro de baldes de alumínio depois que o Tio Osvaldo o tirava das vacas. Vó Maria sentou comigo em cima do fogão à lenha. Entre nós duas ela colocou uma bacia com uma peneira em cima.  Minhas mãos pequenas e inexperientes foram então instruídas a apertar bastante aquela massa branca em cima da peneira para que o soro passasse pelos buraquinhos e caísse na bacia, separando-se do massa.

Ainda me lembro da textura do queijo passando entre os meus dedos e do calor das mãos enrugadas da bisavó Maria, que esbarravam nas minhas mãos de criança entre um movimento e outro. Mais tarde quando o queijo já estava descansando na forma, vó Maria anunciaria para todo mundo que fora eu quem o havia feito. A menininha que eu era, é claro, abriria um sorriso de satisfação e orgulho.

Ali, todos os meus sentidos eram despertados. Eram muitos aromas, mas sobre todos eles o cheiro dos grãos de café predominava e perfumava toda a casa. Na despensa ao fundo da cozinha havia muitos sacos com os grãos produzidos ali mesmo na fazenda do bisavô Joaquim. Ele tinha bois e porcos, mas a maior parte do sustento da família vinha mesmo da venda do café.

Uma das minhas diversões ali era moer os grãos. Vó Maria tinha uma pequena maquininha de ferro, onde eu colocava os grãos e depois girava uma manivela com força. Sentia então os grãos serem triturados, ouvia o barulho deles se quebrando e então o pó de café caía, como mágica, numa tigela que eu colocava embaixo da máquina. Era uma experiência tão encantadora saber que o vô tinha plantado e colhido os grãos das árvores e eu, tão pequena, finalizava o processo e produzia o pó que, em São Paulo, minha mãe tinha que comprar no supermercado.

Tudo ali era assim. Alguém precisava fazer, do começo ao fim. Colhiam a alface, a couve, a cenoura, tiravam o leite da vaca, produziam o milho, o café, matavam o porco e a galinha pra comer. Era muito trabalho o tempo todo. Vó Luiza, que sempre me pareceu frágil, saía com um facão na mão e cortava o pescoço da galinha. Lembro-me de ver a coitadinha sangrar, gritar, tentar fugir. “Como vó Luiza tinha coragem de fazer isso?”, eu pensava. Depois a bichinha, tristinha, era colocada dentro de um caldeirão com água borbulhando e vó Maria e vó Luiza iam tirando as penas da pobrezinha. Tudo muito estranho. Em São Paulo, as galinhas não tinham pena, nem pescoço. Elas eram bem menores, mais felizes e se chamavam frango.

Era impossível não comparar aqueles dias com os dias que eu costumava viver na cidade. Quando o sol ia embora um espetáculo gratuito aparecia nos céus. Eu ficava intrigada e sempre perguntava ao meu pai porque é que em São Paulo não havia estrelas assim. Ele me explicava que lá tinha estrela sim, mas a poluição e as luzes da cidade impediam que a gente as visse. Eu compreendia, mas gostava mesmo de pensar que lá em Minas a gente tinha um outro céu, muito mais bonito, pintado e decorado só pra que pudéssemos assistir ali da varanda.

Às vezes a vida era assustadora por lá. Junto com as estrelas, nessa mesma varanda, eu ficava incomodada com a quantidade de insetos que aparecia fazendo todo o tipo de zunido estranho. Não gostava. Fazia manha, chorava, queria que minha mãe viesse pra dentro comigo. Meu pai dizia: “Menina, olha o seu tamanho perto deles”. Mas não adiantava, pra mim eles eram perigosíssimos, venenosos, monstruosos. Quanto mais escurecia, mais deles a gente via.

Mais tarde, já na cama, quando toda a prosa se calava, dava pra ouvir os bichos e insetos fazendo festa do lado de fora, todo tipo de algazarra. O teto do quarto, sem forro, me metia medo. Eu custava a adormecer pensando que um bicho poderia entrar pelo teto ou por debaixo das portas. Quando o sol nascia no dia seguinte, os passarinhos e os galos anunciavam em sua sinfonia matinal que o dia raiara e que tudo o que a gente não podia ver na escuridão havia ido embora. A festa dos bichos feios acabara e eu podia sair para brincar. Eu não tinha mais medo.

Eu abriria a janela azul e lá embaixo, no terreiro em frente a casa, eu avistaria um chão coberto de grãos de café. Era dia de secá-los ao sol. Eu correria para lá e andaria por cima deles, descalça. Viveria, então, mais um dia de estranhezas que me faziam sorrir.

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Quando Ana virou criança

Ana tinha 30 anos, mas naquela noite se sentia como uma menina boba e imatura de 9 anos de idade. Estava indefesa, não via nada à sua frente. Era uma menininha com medo de escuro olhando para o breu do quarto de debaixo do cobertor. Ela estava há mais de seis mil milhas de casa em um país estranho, numa cidade sem calçadas. Levava uma mala cheia de roupas, mas vazia dela mesma. Aquela mala que ela abastecera com conhecimento e maturidade ela deixara pra trás, em seu antigo apartamento, na sua antiga história.

Quando ela entrou naquele avião três meses atrás, toda a sua antiga vida começou a se desfazer no ar e a cada milha voada ela podia ver partes dela mesmo sendo deixadas para trás, entre as nuvens. Ela acordou naquela cidade sem calçadas e era como se ela não tivesse passado, identidade, carreira, sabedoria, ação. Ninguém sabia quem ela era e se ela realmente era alguém. Ela estava cansada, suas costas gritavam e seus ombros estavam pesados e tensos. Ela precisava esquecer. Ela não conseguia. Tudo dentro dela estava tentando mostrar o quão fraca e frágil ela era, até mesmo durante os seus sonhos.

Foi exatamente o que aconteceu naquela noite enquanto dormia. Ana estava em frente a casa de sua avó em um dia ensolarada como os de janeiro. Estava dentro do carro, sozinha, sentindo em suas mãos o volante quente e tentando estacionar o carro paralelo à guia da calçada. Ela não conseguia. Sua garganta estava seca, o suor escorria em suas costas e o retrovisor não podia guiá-la.  Ela tentou duas vezes, mas o carro insistia em ficar desalinhado. Seus pais estavam parados em frente o portão, observando. O pai dela então se aproximou e começou a dar orientações pelo lado de fora do vidro do carro.

“Vire o volante para a direita. Não tanto. Menos, menos. Não, gira pro outro lado agora. Foi muito”, ele dizia impaciente.

Ela tentou pela terceira vez mas não conseguiu. Deixou a testa cair no volante e desistiu. Ana saiu do carro, deu as chaves nas mãos de seu pai e assistiu ele estacionar o carro facilmente, do jeito que ela mesmo costumava fazer. Por alguma razão, no entanto, ela não conseguia mais, como uma menina de 9 anos ela não tinha mais controle . Ela precisava de ajuda. Ela precisava aprender tudo de novo.

Ana acordou, acendeu as luzes e sentiu a mesma garganta seca do sonho. Naquele momento, as 4 da manhã, ela só queria um copo de água. No dia seguinte, porém, ela teria de levantar e descobrir como crescer de novo.

Obs: Esse foi um dos primeiros textos que escrevi para a minha aula da pós. É claro que Ana é inspirada em mim mesma e no que eu sentia quando cheguei aqui. Nem precisava explicar isso, né?

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Pássaro por Pássaro

Eu nem sei bem se vou conseguir continuar com esse blog, mas a verdade é que há meses que quero começar algo novo. Eu não gosto mais do nome do antigo blog (Fabi em Contos). Me soa infantil e, ao mesmo tempo, parece que me limita. Sempre que quero escrever algo por lá, vem aquele velho pensamento da metódica que mora em mim: “Ei, isso aí não é um conto não, isso aí é só um pensamento seu”. Aí a metódica não deixa eu publicar.

Muitas coisas que estão por lá, eu vou republicar aqui vez ou outra, porque a minha idéia é que isso seja um espaço livre, onde eu possa escrever na linguagem e formato que eu quiser, sobre o tema que eu quiser, trazendo retratos de gente como eu, retratos de mim mesma, de anônimos, ou tudo isso junto.  Provavelmente, a maioria dos textos terá uma linguagem mais literária, mas nada impede que não tenha.

A verdade é que desde que nos mudamos pros Estados Unidos, eu passo por uma fase de eterna reflexão sobre mim mesma, sobre o mundo, sobre as pessoas que me cercam, sobre o Brasil, sobre Deus e minha religião. Não quero ser presunçosa, mas acho que eu poderia dividir as minhas experiências, as conclusões (que eu faço e desfaço), os meus sonhos, as minhas memórias e, claro, outras histórias que eu observo e transformo em contos.

Aproveitando que estou fazendo uma pós em escrita literária por aqui e ando produzindo bastante coisa, também quero aproveitar parte desse material porque acho importante que outras pessoas leiam, opinem e me indiquem caminhos, seja na ficção ou na não ficção.

Eu estava precisando de um empurrão inicial pra criar esse blog até que ontem pela manhã eu achei o Colorida Vida, da Ana Paula, que, assim como eu, é jornalista e mora com a família em outro País. Gostei dos textos que ela escreve e adorei ler a projeção de mim mesma em parte das experiências dela como imigrante. Sem saber, sem me conhecer, Ana Paula me ajudou a sentar e começar.

Daí eu me lembrei do livro Bird by Bird, de Anne Lammot, que li neste trimestre para o meu curso na Universidade de Berkeley e essa lembrança me deu o empurrão final.  É um livro inspirador pra quem quer escrever mas não sabe por onde começar. A autora é incrível e, em um determinado momento, ela conta que o irmão, ainda criança, precisava fazer um trabalho escolar sobre pássaros e tinha que escrever sobre diversas espécies. Ela via ele debruçado sobre a mesa, pronto pra começar a chorar, com diversos livros espalhados, nervoso porque não sabia por onde começar no meio daquela bagunça e diante de tantas possibilidade. O pai dela, que era escritor, sentou com o menino e disse: “Pássaro por pássaro (bird by bird), rapaz. Encare isso pássaro por pássaro (bird by bird)”.

Tão simples, mas tão inspirador. Ela trouxe esse conselho pra vida de escritora e é preciso ler o livro pra entender melhor o sentido dessa frase, mas acho que escrever e viver é isso mesmo, a gente não sabe como começar a escrever diante de tantas coisas que temos dentro de nós e, por vezes, também não sabemos por onde começar a agir em algumas situações da vida. Mas é preciso começar, e escrever, e viver, pássaro por pássaro, bird by bird.

Não sei pra onde vou, só sei que preciso começar. Alguém aí sabe pra onde está indo?

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