Uma vida com prefixo

Há um vida pronta, definida e perfeita dentro da nossa imaginação. Nós a criamos, com começo e meio. Não tem fim. Entre os muitos elementos que a compõem está a tal: a completa felicidade, sem limites, toda hora, pra sempre. Mas fora do imaginário – já se sabe – a vida varia. Não gosta de mesmice, não quer encarar essa coisa de completa, sem limites, toda hora e pra sempre. Não mesmo. Não é pra ser assim e nunca será. Há dias em que essa tal vida acorda dura e triste, com o olhar perdido e a testa enrrugada. Outros dias – as vezes até numa segunda-feira que não é feriado – ela levanta com o peito aberto, a cabeça erguida e um sorriso que até irrita quem passa por ela. 

E assim ela segue, sem o tal lirismo inesgotável dos nossos silenciosos sonhos imaginários, mas com o barulho necessário da voz que nos direciona. Corrigo, que nos redireciona. O prefixo se faz necessário porque nesse emaranhado de dias que é a vida, o que mais teremos de fazer é nos redirecionar, refazer, reconstruir, replanejar, repensar. Um dia, numa manhã cinzenta, vem a a morte para nos fazer encarar os que ficaram com mais seriedade e amor. Na outra quinta-feira, sem avisar,  a vida acorda para uma discussão tola que desfaz uma amizade de infância que a gente achava que seria viva até o fim. Amanhã, talvez, dois que caminhavam juntos, seguirão caminhos diferentes. No mês que vem, a casa fica pequena, a gente muda de bairro e muda até o caminho pro trabalho. No ano que vem, a vida te leva pra outro país, outra viagem, outras idéias, outro mundo. É assim. Muda, para por um tempo, muda outra vez. A gente muda junto. Somos outros, todos os dias. 

E aí, nessas andanças, a vida pronta dentro da nossa imaginação é confrontada diariamente. E com o passar dos anos, entendemos que a vida – essa coisa maluca da qual não queremos sair – é muito mais cinema culti europeu do que produção hollywoodiana. Não há previsibilidade. Nesse roteiro com começo, meio e fim, só nos cabe o papel de procurar beleza nas entrelinhas, e aprender a viver em diferentes circunstâncias, muito além da produção romântica da nossa ingênua imaginação. Refaçamos planos, criemos novos sonhos e façamos valer, de um jeito ou de outro. Diferente, mas sempre adiante. 

“Only in God we can find happiness”.

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Sobre Fabiana Souza

Sou jornalista, paulistana, cristã e esposa do Ugo, não necessariamente nessa mesma ordem. Sou apaixonada por livros, jornalismo literário e viagens. Recentemente descobri que também adoro estudar teologia. Trabalho como repórter correspondente no Brasil de numa agência de notícias britânica e nas horas vagas tento escrever sem nenhuma imposição de temas, metragem ou estilo.
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Uma resposta para Uma vida com prefixo

  1. Silvia disse:

    Ai, que delícia de texto!!! A parte que mais me chamou a atenção, como boa geminiana: “A gente muda junto. Somos outros, todos os dias”. Parabéns, Fabi!!!! Bjs

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