A devoção de cozinhar

Eu venho de uma família de boas cozinheiras. Minha avó paterna, Antonieta, era filha de italianos e preparava a melhor massa que eu já comi em toda a minha vida. Minha avó materna, Luiza, nasceu em Minas Gerais e – como era de se esperar – faz com habilidade todas as delícias da culinária mineira, incluindo um feijão incomparável. Minha mãe Eunice herdou o talento de minha vó Luiza e, assim, eu cresci em uma casa em que os melhores momentos dos nossos dias aconteciam sempre ao redor da mesa com mais comida do que possivelmente poderíamos comer.

Baseado nesse meu passado, eu deveria ter me tornado uma perfeita cozinheira desde cedo. Bem, – contraditoriamente ou até pela conveniência que sempre tive – eu não me tornei.  Na verdade, eu nunca havia tentando ser uma boa cozinheira, pelo menos até eu me mudar para os Estados Unidos e ver a minha antiga rotina se esvair pelos ares. Enquanto no Brasil eu enfrentava trânsito e uma rotina de trabalho estressante que as vezes ultrapassava 8 horas por dia, nos Estados Unidos eu voltei a ser uma estudante, passei a ser dona de casa e ganhei o papel de freelancer esporadicamente. Na minha nova vida, bem longe da família e dos amigos, eu encontrei na cozinha uma conexão com o meu passado, com as minhas raízes, com tudo o que estava tão distantes dos meus olhos. Cozinhar é como reafirmar a minha identidade, é um ato que me ensina sobre quem eu posso ser no futuro e me faz lembrar dos sabores do meu país.

Percebo que, de forma ingrata, nunca valorizei suficientemente todos os esforços que as mulheres da minha vida já fizeram e ainda fazem para preparar boas refeições para a família todos os dias. Hoje,  sei que isso é um ato de amor inestimável. A menina mimada que eu costumava ser tinha a impressão que as travessas de comida apareciam na mesa como num passe mágica. Hoje, entendo que o processo até que nós pudéssemos saborear a lasanha da minha mãe era mais longo do que eu imaginava.

Antes de começar a cozinhar, há sempre um caminho a trilhar  (o mais chato do processo todo, na minha opinião). É inútil ir pra cozinha se você não tem todos os ingredientes para preparar o prato do dia. Parece óbvio, mas quando você cozinha diariamente, isso acaba sendo sempre um atravanco no meio do caminho. Odeio quando me dou conta de que eu não tenho todos os ingredientes que preciso na minha geladeira. É aí que o ato de cozinhar começou a me ensinar. Dizem que conselhos não ensinam tanto quanto a vida e é exatamente isso que eu sinto. Não adiantou me dizerem que eu precisava ser mais organizada. Foi a rotina de cozinhar que me ensinou isso. Para aquela lasanha de domingo, havia planejamento puro, desses que devem ensinar em cursos de MBA. Antes de ela surgir na minha frente, ela demanda idas ao supermercado, olhadelas na dispensa, tentativas de lembrar se há presunto suficiente na geladeira,  cálculo de proporção para saber quanta muçarela (eu odeio a grafia dessa palavra) deveria ser comprada, checagem do saldo da conta corrente, etc. Ufa. Agora sim, minha mãe poderia começar a cozinhar.

Essa rotina na cozinha também me ensinou a controlar melhor as minhas emoções. Tenho aprendido a ser mais calma quando tento alguma receita nova. No Brasil, quando isso ocorria eu sentia a tensão nos meus músculos, porque eu temia que o resultado pudesse ser um desastre e eu ainda teria que limpar e arrumar toda a bagunça que eu havia feito, sem nada em troca para me consolar. Aqui, eu ainda temo que tudo dê errado, mas eu me permito errar mais. Concluí que eu estou na MINHA cozinha e eu não tenho um chefe colocando um dedo no meu nariz e me pedindo para atingir metas impossíveis. Como a rainha do meu fogão, eu decretei que aqui é um território livre onde eu posso cometer erros e celebrar vitórias, caminhando no compasso que eu quiser.  É claro que ainda temo as consequências quando faço algo que nunca fiz – como uma quiche que tentei há algumas semanas ­– mas estou aprendendo que a diversão e o prazer devem ser sempre maiores que a tensão.

Hoje eu consigo fazer tudo com mais rapidez e sei, que embora eu não seja uma cozinheira profissional (ainda), minha comida tem mais sabor e personalidade do que quando eu cozinhava apenas duas ou três vezes por semana no Brasil. Como tudo nessa vida, leva tempo até que nos sintamos confiantes e calmos sobre o processo de preparar um bom almoço ou jantar. Mas além disso, vejo que não importa quão experiente você seja, boa comida demanda dedicação e amor, especialmente se você não quer ser vítima da comida congelada e enlatada. Eu sinto prazer em descascar, picar e preparar todos os ingredientes de um prato. Compreendo o quanto as mulheres da minha vida abdicaram de seu tempo simplesmente porque elas jamais comprariam feijão enlatado ou não acreditariam naquele terrível pó mágico que as pessoas dizem se transformar em purê de batatas. É por isso que digo que cozinhar é um ato de devoção, de querer o melhor para você e para todos que sentarão à mesa ao seu lado.

A rotina de preparar refeições é uma das benções que Deus me deu nesse período em que estou longe de casa. Eu não me impressiono com as receitas que estou aprendendo aqui, o que me impressiona mesmo é quanto o ato de cozinhar me ensina sobre a vida. Hoje eu uso esse ato como uma resposta para Deus – dizendo a ele de forma silenciosa, apenas com o movimento das panelas ­– que embora eu tenha chorado muitas vezes, eu sou muito agradecida por ele ter me tirado do meu louco ciclo casa-trabalho-casa e me trazido aqui para um novo lugar para enfrentar desafios e ouvir tão claramente a voz Dele – ao invés de apenas viver sem pensar ou sentir.

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Sobre Fabiana Souza

Sou jornalista, paulistana, cristã e esposa do Ugo, não necessariamente nessa mesma ordem. Sou apaixonada por livros, jornalismo literário e viagens. Recentemente descobri que também adoro estudar teologia. Trabalho como repórter correspondente no Brasil de numa agência de notícias britânica e nas horas vagas tento escrever sem nenhuma imposição de temas, metragem ou estilo.
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4 respostas para A devoção de cozinhar

  1. Fernanda Valence disse:

    Fiquei com vontade de experimentar seu tempero… rsrsrsrs….

  2. Silvia disse:

    Fabi, se o seu talento com as panelas for parecidinho com o seu talento com as palavras, menina!!! Quero provar a sua comida!!! Já quanto ao ato de cozinhar, eu acho a expressão “arte culinária” perfeita. Porque cozinhar, na minha concepção, é sim uma arte e arte, como o próprio nome diz não é pra qualquer um se arriscar a fazer. É só mesmo para os artistas. Natos? Melhor, né?? Mas acho que dá sim p/ aprender…. Desde que haja essa devoção, de que vc fala!!! Parabéns!!!! Pelo texto e pela iniciativa de enfrentar as panelas!!! Bjs

    • Fabiana Souza disse:

      Hahahaha, sil. Meu relacionamento com as panelas só está começando! Ainda falta muito chão. Mas eu faço um jantarzinho pra você se você prometer não criar muitas expectativas. Hahahaha. Do mais obrigada pelo apoio e feedback que sempre dá sobre meus textos. Minha incentivadora número 1.

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