O pequeno francês

CASA 004Quando ele nasceu – na casa vizinha dos meus avós – ele cabia na palma da minha mão de menina de 9 anos. Era um pontinho preto e miúdo com pequenas manchas marrom nas patinhas. Minha tia disse que podíamos chamá-lo de Petit.   “Isso significa pequeno, em francês.  E também pode ser ervilha que em francês é Petit poá (Petit-pois)”, ela ensinou. Eu e meu irmão adoramos a idéia do nome. Por algum motivo dentro do nosso imaginário infantil, essa coisa de nome francês, ervilha e cachorro totalmente se encaixavam. Obviamente que Petit, aquela pequena vítima que receberia nome gringo, não tinha nada de francês. Ele era um autêntico brasileiro, nascido de uma mistura de um chuaua negro, chamado Pity, e de uma vira-lata malhada de branco e marrom, chamada Lady. O claro exemplo da miscigenação brasileira.

O cachorro seria nosso, mas infelizmente, ele não poderia morar conosco. Nosso apartamento era muito pequeno e minha mãe disse que ele não seria feliz por lá. “Ele precisa de espaço para brincar e correr como todos os cachorros fazem”, ela explicou quando tentamos retrucar. Petit ficaria na casa dos meus avós, onde havia um espaçoso quintal. Nós finalmente concordamos, afinal nós morávamos perto e poderíamos visitá-lo quase todos os dias.

Meu avô não gostou da idéia, mas como minha avó aceitara  – e ela sempre dava a última palavra naquela casa – o cachorro ficou. Desde então, o vô mantinha uma constante discussão com Petit: “Passa cachorro, para de pular em mim”, “Ei menino, que cê tá fazendo? Ah não, você roeu minha chinela todinha” ou “Oh meu Deus, você fez cocô no quintal inteiro”. Era assim o dia todo.

Petit não podia entrar em casa. O lugar dele era no quintal. Essa era a regra que o meu avó queria que ele seguisse e ainda que as portas da cozinha e da sala ficassem sempre abertas, Petit sempre respeitava a imposição e não entrava. Quando a família estava reunida nesses lugares ele geralmente cruzava um pouco a linha, mas meu avô permitia que ele desse apenas um passo para dentro e depois ele tinha que parar, ficando posicionado sempre um pouco após o batente da porta. Este era o limite e ele entendia e convivia com isso muito bem. Meu avô só precisava olhar pra ele que o danado já entendia e obedecia.

Os anos se passaram e o vô continuava dizendo que não ia muito com a cara do cachorro, mas todo mundo sabia que isso não passava de pose. Petit, o nosso vira-lata francês, era, no final das contas, muito mais o cachorro do meu avô do que o nosso cachorro. O vô estava constantemente preocupado com Petit, checava se o cachorro estava bebendo água ou se estava comendo a nova ração – sabor bife – que ele havia acabado de comprar. Ele também era o responsável pela carteira de vacinação de Petit, que ele guardava em uma gaveta no armário da cozinha. Era ele quem levava o francesinho para as vacinas no posto de saúde todos os anos. No final das contas, eles eram grandes amigos e Petit não podia ver o vô sem balançar o rabinho e pular nas pernas dele.

Depois de uma amizade de 14 anos com Petit, o vô faleceu repentinamente de um ataque cardíaco em abril de 2007. Uma semana após sua morte, Petit desapareceu. Nós chamávamos pelo seu nome mas ele não atendia. Nós procuramos nas ruas ao redor da casa, perguntávamos para os vizinhos, mas nada. Decidimos então procurar dentro de casa. Ao subir para o segundo andar fiquei surpresa quando vi o pequeno o pequeno Petit, chorando, andando pelo longo corredor e olhando dentro de todos os quartos, claramente procurando por algo.

Eu o levei de volta ao quintal, mas durante aquela semana ele parecia completamente diferente. Ele não estava respeitando as regras. Nós o encontramos no segundo andar da casa diversas outras vezes, inclusive no quarto do meu avô. Ele estava buscando seu companheiro. Ele estava sentindo falta de seu amigo mais fiel. Ele estava tentando entender – como todos nós. Petit morreu 9 meses depois que o meu avô.

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Sobre Fabiana Souza

Sou jornalista, paulistana, cristã e esposa do Ugo, não necessariamente nessa mesma ordem. Sou apaixonada por livros, jornalismo literário e viagens. Recentemente descobri que também adoro estudar teologia. Trabalho como repórter correspondente no Brasil de numa agência de notícias britânica e nas horas vagas tento escrever sem nenhuma imposição de temas, metragem ou estilo.
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3 respostas para O pequeno francês

  1. Silvia disse:

    Mais um lindo texto!!! Muito linda essa ligação entre humanos e animais! bjs

  2. Denise Maellaro disse:

    Meus últimos dias foram difíceis, cheguei no hotel agora pouco e fiquei pensando o que fazer para acalmar minha mente. Entrei no seu blog para ler os seus textos. Obrigada, você me ajuda mesmo sem saber aí de longe! bjo

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