A dança das teorias

A teoria todos nós sabemos. Conseguimos repetir pra nós mesmos, para os outros, para os felizes e infelizes, para os amigos e até para os desafetos. Vivemos a teoria por uns dias, até que em uma manhã qualquer, como um trem que parte de uma estação, a teoria que nos sustentava desaparece. Aquela constante sabedoria que vínhamos repetindo diariamente parte para longe.

Percebo então que estava, por vários dias (as vezes meses e anos) fixando meus pés e caminho numa esperança que embora parecesse óbvia, clara e verdadeira, de uma hora para outra deixa de estar comigo, não cabe mais nas minhas mãos. Me vejo então sozinha, numa plataforma vazia, olhando o horizonte que se forma sobre os trilhos solitários e enferrujados por onde partiu a minha, até então, tão certa teoria.

As minhas mão se abrem e fecham todos os dias para deixar ir aquelas velhas teorias que já ficaram por demais ultrapassadas. As vezes sob a plataforma, com o trem prestes a partir, custo a abrir as mãos para deixá-las ir, custo a acreditar que preciso desacreditar, custo a aceitar que terei que substituir velhas convicções por novas realidades. Em outros momentos o que mais quero é me livrar daquelas teorias pesadas, então abro minha mão e as atiro abruptamente, sem dó, sobre o trem prestes a partir.

Mesmo assim, é sempre doloroso encarar o movimento de abrir e fechar as mãos para mandar embora o que não é pra ser e receber o que precisa vir. Esse movimento, uma dança frequente que a vida no impõe, demanda não apenas coragem, mas também uma constante renovação da fé.

Nesse processo de renovação da fé é que percebo que naquela plataforma de onde o trem partiu e chegou, tantas vezes, eu nunca estive sozinha. Ontem mesmo ouvi novamente a teoria, essa soberana e absoluta, de que a vontade de Deus nunca me levará onde sua graça não poderá me proteger.

Que venham, portanto, os trens. Cheguem fazendo barulho ou sem que eu perceba, levem as minhas teorias, tragam-me novas. Só não poderão arrancar de mim a única e absoluta teoria, que já vive em mim, e sustenta todas as outras, as que já foram e as que ainda virão.

“Os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” Isaías 40:31

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Sobre Fabiana Souza

Sou jornalista, paulistana, cristã e esposa do Ugo, não necessariamente nessa mesma ordem. Sou apaixonada por livros, jornalismo literário e viagens. Recentemente descobri que também adoro estudar teologia. Trabalho como repórter correspondente no Brasil de numa agência de notícias britânica e nas horas vagas tento escrever sem nenhuma imposição de temas, metragem ou estilo.
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7 respostas para A dança das teorias

  1. Bruna disse:

    Muito bom, Fabi. Que venham as novas teorias, sejam elas boas, para guardá- las para sempre, ou também as ruins, que de uma forma ou outra servirão de aprendizado para a vida.

  2. Clara disse:

    Eu leio seus textos e fico sempre sem palavras, Fabi querida.

    Lindo, lindo… e tão apropriado pro momento que eu vivo!

    Beijos e saudades muitas!

  3. Silvia disse:

    Esse seu texto tem tudo a ver com o meu curso de filosofia que faço na Seara – sei que seguimos na mesma direção, em trilhos separados, por assim dizer, mas que conduzem à mesma estação final, assim espero. Ontem foi a primeira aula do segundo ano (são 3 anos) e é bem assim mesmo, uma viagem de descobertas, de descartar teorias velhas e adotar novas, muito rico esse processo. É o crescimento a que todos estamos sujeitos. Bjs

    • Fabiana Souza disse:

      Lindíssima, obrigada pelo comentário. Eu acho que vou te contratar como minha PR. Vc divulga o link do meu blog no FB e quando eu vou checar as estatísticas tem um monte de gente vindo visitar…Obrigada, viu? Eu morro de vergonha de divulgar o blog, mas adoro quando você faz isso por mim…hahahaha
      Beijos

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