Os ciclos

Como as folhas que mudam de cor, caem e renascem, assim somos nós. Estamos sempre prontos para um novo recomeço todos os dias, ainda que dentro de nós não compreendamos o nosso próprio poder de encarar o novo, de ir além. Dentro de nós há uma fonte infinita de esperanças. Até os menos otimistas, na escuridão da alma, querem ouvir o canto do novo e sussurram pela continuidade do ciclo, mesmo que ele pareça estranho e às avessas. Gostamos de ir além e ultrapassar aquele pequeno instante entre o ontem e o amanhã porque é exatamente nessa travessia que nos transformamos. E todos nós clamamos por transformação, O TEMPO TODO.

Aquela ingenuidade, de tanto apanhar, torna-se dureza, desconfiança. A entrega, antes feita por inteiro e sem medo, agora é executada vagarosa, parte por parte. Os desejos, dias atrás intensos e sem medida, tornam-se cuidadosos e racionais. O amor, que achávamos que conhecíamos, se apresenta melhor, maior e mais profundo a cada dia. A experiência, que antes era rarefeita, quase como um punhado de areia que escorre pelas mãos, fica mais firme como a argila, dando-nos a capacidade de nos moldar para enfrentar o que vemos adiante. Aquele temor, que antes era aterrorizante e trazia um grito profundo que ecoava pelo corpo todo, hoje já é menos vigoroso, como se tivesse envelhecido e perdido a força.

Cada ciclo traz consigo um novo gosto, uma nova cor, um jeito diferente de compreender os mesmos fatos ou a confirmação de que a compreensão anterior continua a valer. Ganhamos novas formas, novas qualidade e novos defeitos. E continuamos a clamar pelas transformações porque são elas que nos elevam, nos distinguem, nos fazem sentir que estamos vivos (e vivendo).

Queremos viver os ciclos para que eles nos dispam do que não gostamos, nos revistam do que buscamos e nos completem com aquele amanhã que esperamos ser ainda melhor do que o que hoje vivemos. Desejamos ser surpreendidos por um ciclo com mais flores, mais cores, mais intensidade. O ciclo que ainda não começou é sempre mais atraente. Ansiamos pelo o que não sabemos, suplicamos por um novo motivo de riso e pelo fim do choro que nos fará mais forte. Queremos ir além, sempre e sempre.

Somos como as estações do ano, com a diferença de que não conhecemos, como elas, a agenda de nossos ciclos.  Eles não acabam em quatros meses, às vezes são mais curtos, mais longos, outros vão durar a vida toda. Não sabemos. Somos por vezes tolos porque queremos saber de antemão o começo e o final de tudo, como  o outono e o verão.  Queremos ter, como a primavera e o inverno, o conhecimento do momento de florescer e secar.

Mas os nossos ciclos, esses todos que vivemos, estão inseridos em planos maiores, em um calendário desconhecido (ao menos para nós).  Eles são para serem recebidos, sentidos e vividos na esperança de que, embora sejamos ignorantes a respeito do tempo, há um início e um fim marcado para tudo, uma hora exata, uma agenda feita, perfeita e determinada para todos nós, para cada dia, minuto, segundo, PARA NÓS.

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Sobre Fabiana Souza

Sou jornalista, paulistana, cristã e esposa do Ugo, não necessariamente nessa mesma ordem. Sou apaixonada por livros, jornalismo literário e viagens. Recentemente descobri que também adoro estudar teologia. Trabalho como repórter correspondente no Brasil de numa agência de notícias britânica e nas horas vagas tento escrever sem nenhuma imposição de temas, metragem ou estilo.
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6 respostas para Os ciclos

  1. Clara disse:

    Seus posts sempre me fazem sorrir. Sempre. 🙂

    Beijos, Fabi querida!

  2. Denise Maellaro disse:

    ” Eles são para serem recebidos, sentidos e vividos na esperança de que, embora sejamos ignorantes a respeito do tempo, há um início e um fim marcado para tudo, uma hora exata, uma agenda feita, perfeita e determinada para todos nós, para cada dia, minuto, segundo, PARA NÓS.” LINDO – Muito bom participar das suas ideias e com elas acabar refletindo sobre as minhas!!!

  3. Silvia disse:

    Lindo, lindo, lindo e profundo. Parece que vc tem a sabedoria de uma senhora de uns 80 anos…. Fantástico esse seu talento. Estou estupefata. rsrsrs Como demorei tanto pra chegar aqui?? Agora preciso recuperar o tempo perdido. Bjs, querida.

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